
Jos, Nigéria – Poucos dias depois de uma viagem de advocacia cristã a Israel, o reverendo Ezekiel Dachomo voltou a se sentar à beira de uma cova aberta no estado de Plateau. Ao seu lado, corpos envoltos em tecidos coloridos aguardavam o enterro coletivo de mais membros de sua igreja, mortos em ataques recentes.
A cena, capturada em vídeo pelo repórter de conflitos Masara Kim e compartilhada nesta sábado (17), mostra o pastor visivelmente abatido, conduzindo mais um funeral em massa. Dachomo é presidente regional da Church of Christ in Nations (COCIN) na área de governo local de Barkin Ladi. Ele já realizou dezenas de cerimônias semelhantes — ele mesmo afirma ter conduzido mais de 70 enterros coletivos de vítimas cristãs ao longo dos anos.A viagem a Israel e o retorno à dorNo início de outubro de 2026, Dachomo embarcou em sua primeira turnê internacional de advocacia cristã. Em Israel, ele orou por líderes nigerianos e israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e buscou chamar a atenção mundial para o que descreve como uma perseguição sistemática a cristãos no Cinturão Médio da Nigéria, especialmente no estado de Plateau.“Estou em Israel orando pela Nigéria, pelos nossos líderes e pelo nosso povo”, escreveu ele nas redes sociais. O clérigo expressou desejo de compartilhar com autoridades internacionais “a agonia dos cristãos na Nigéria”.O retorno, no entanto, foi marcado por novas mortes. Ataques atribuídos a militantes fulanis — grupos armados frequentemente ligados a conflitos entre pastores nômades e agricultores — continuaram a atingir comunidades cristãs em áreas como Barkin Ladi, Bokkos e Riyom. Em várias ocasiões anteriores, Dachomo já havia conduzido enterros de dezenas de pessoas de uma só vez, incluindo 22 cristãos em Kawel (Bokkos) em junho de 2026 e outros grupos em ataques a vilarejos e locais de mineração.Um padrão de violência persistenteO estado de Plateau, no centro da Nigéria, é há décadas um dos epicentros de confrontos entre agricultores predominantemente cristãos (de etnias como berom e outras) e pastores fulanis, majoritariamente muçulmanos. Relatos locais e de organizações de direitos humanos apontam que os ataques noturnos a vilarejos, com uso de armas de fogo e facões, deixam dezenas de mortos, casas destruídas e deslocados internos.Dachomo e outros líderes comunitários classificam a situação como genocídio contra cristãos, citando o alto número de vítimas e a percepção de impunidade. O governo nigeriano e algumas vozes oficiais costumam rejeitar essa caracterização, atribuindo a violência a disputas por terra, recursos e banditismo, sem motivação religiosa exclusiva. Dados de grupos de monitoramento e reportagens locais, no entanto, indicam que comunidades cristãs do Middle Belt têm sido repetidamente atingidas, com o pastor afirmando que os ataques buscam “eliminar os cristãos do Plateau”.O clérigo também enfrenta ameaças pessoais. Em entrevistas anteriores, ele relatou receber avisos de morte por sua insistência em documentar e denunciar os enterros em massa, inclusive filmando as cerimônias para deixar registro histórico.“Quantas vidas inocentes ainda serão necessárias?”Em um de seus funerais anteriores, Dachomo questionou: “Quantas vidas inocentes ainda precisam ser perdidas antes que a paz chegue à nossa terra?”. A pergunta ecoa novamente nesta última cerimônia.Enquanto o pastor se ajoelha em mais uma cova coletiva, a violência no Plateau permanece um dos dramas humanitários mais prolongados e subnotificados da África Ocidental. Organizações internacionais e líderes religiosos continuam a pressionar por maior proteção às comunidades afetadas e por investigações independentes sobre os ataques.A imagem de Dachomo sentado na terra, cercado pelos corpos de seus fiéis, resume um ciclo que ele tem tentado interromper — ora com orações em terras distantes, ora com lágrimas em solo nigeriano.








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