
Na noite de sexta-feira (6 de novembro de 2026), o então presidente do Paraguai, Santiago Peña, saiu do poder e, poucas horas depois, já estava sob prisão domiciliar. O Senado aprovou o impeachment por unanimidade (44 votos a favor e uma ausência) e, na sequência, o Ministério Público determinou sua detenção em casa. O caso está diretamente ligado à quebra do Ueno Bank, o banco digital que deixou milhões de paraguaios sem acesso ao próprio dinheiro.
O que desencadeou a crise?
O Ueno Bank, instituição digital ligada ao Grupo Vázquez, foi intervindo pelo Banco Central do Paraguai no início da semana. Reguladores apontaram problemas de solvência relacionados a empréstimos a empresas do próprio grupo e irregularidades contábeis. O fechamento das operações congelou contas de quase metade da população do país (mais de 3 milhões de pessoas, segundo estimativas), incluindo salários e benefícios previdenciários. Protestos explodiram em Assunção e a pressão política se intensificou rapidamente.
Peña tinha vínculos anteriores com a holding do banco. Ele declarou participação acionária até 2025 e ainda mantinha aplicações na instituição. A oposição e setores do próprio Partido Colorado acusaram o presidente de conflito de interesses, favorecimento regulatório e desvio de recursos públicos para o banco.
Impeachment relâmpago e prisão domiciliar
Na quinta-feira (5), a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment por unanimidade. Peña tentou renunciar, mas o Congresso seguiu com o julgamento político. Na sexta, o Senado concluiu o processo em ritmo acelerado e destituíu o presidente por “mau desempenho de suas funções”.
A decisão teve um efeito imediato: Peña perdeu o direito à senadoria vitalícia e à imunidade que os ex-presidentes possuem no Paraguai. Poucas horas depois, promotores da Unidade Especializada de Crimes Econômicos e Anticorrupção determinaram a prisão domiciliar dele e do ex-presidente do Banco Central, Carlos Carvallo. Peña deverá permanecer em sua residência em Assunção, monitorado pela polícia, até prestar depoimento.
O vice-presidente Pedro Alliana já foi empossado e assumiu a Presidência para completar o mandato até 2028.
Por que a detenção foi tão rápida?
Ao rejeitar a renúncia e optar pelo impeachment, o Congresso retirou de Peña a proteção jurídica que ele teria como ex-presidente. Isso abriu caminho para a Justiça comum investigá-lo por possíveis crimes como lesão de confiança, tráfico de influência e má gestão. As acusações ainda estão sendo formalizadas, mas a ordem de prisão domiciliar já está em vigor.
O caso se tornou o segundo impeachment de um presidente paraguaio desde o retorno à democracia em 1989 (o primeiro foi o de Fernando Lugo, em 2012).
O que acontece agora?
Peña deve comparecer à promotoria. O novo governo de Pedro Alliana prioriza a solução para os clientes do Ueno Bank e a estabilidade econômica. A crise bancária continua sendo o principal foco de preocupação no país, com risco de efeitos prolongados sobre a confiança no sistema financeiro.
O episódio mostra a velocidade com que uma crise financeira pode derrubar um governo na América Latina quando combina problemas de solvência, suspeitas de conflito de interesses e forte pressão popular.
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